RenovaBio

A rastreabilidade da soja deixou de ser apenas uma exigência ambiental e passou a se tornar um fator direto de competitividade para as usinas de biodiesel. No contexto do Renovabio, comprovar a origem da matéria-prima pode significar maior geração de CBios e, consequentemente, mais receita.

O programa estabelece um sistema em que a eficiência ambiental do biocombustível se converte em ativo financeiro negociado em bolsa. Hoje, mais de 300 unidades produtoras estão certificadas e aptas a emitir CBios conforme seu desempenho ambiental.

Em um cenário global que precifica carbono e exige cadeias produtivas mais limpas, o Brasil estruturou um mecanismo de mercado capaz de transformar redução de emissões em valor econômico.

Para as usinas, parte desse valor depende diretamente da origem da matéria-prima. Nem todo grão processado é elegível para geração de CBios. Soja proveniente de áreas desmatadas após 2017 — marco da Política Nacional de Biocombustíveis — não pode ser considerada elegível, pois o desmatamento implica emissão de carbono.

Nesse cenário, a atuação da Ubrabio e demais entidades representativas, tem sido relevante na defesa do fortalecimento do mercado de CBios como mecanismo de valorização dos biocombustíveis de menor intensidade de carbono. Estas entidades acompanham a implementação e os aprimoramentos regulatórios do RenovaBio.

No cálculo do Renovabio, dois indicadores determinam a geração de créditos: a Nota de Eficiência Energético-Ambiental (NEEA), que mede a quantidade de carbono evitada por litro de biocombustível em comparação ao combustível fóssil equivalente, e a fração elegível da matéria-prima. Quanto maior a parcela da biomassa considerada elegível, maior o potencial de geração de CBIOs.

É nesse ponto que a rastreabilidade se torna estratégica. Ao organizar dados de produção, identificar a origem da soja e comprovar critérios ambientais, as usinas conseguem ampliar a fração elegível da matéria-prima utilizada.

A implementação completa de um sistema de rastreabilidade pode levar cerca de dez meses, considerando a organização de informações, validação de fornecedores e adequação aos critérios do programa. Uma vez concluído, o processo costuma ter validade de três anos, garantindo segurança regulatória e previsibilidade operacional para as usinas.

O impacto econômico é direto. Na média das usinas brasileiras, a rastreabilidade da soja com dados padrão pode resultar na geração aproximada de 1,25 CBio por tonelada de óleo de soja. Considerando o preço atual em torno de R$ 33 por crédito, isso representa cerca de R$ 50 adicionais por tonelada processada.

Quando a certificação é realizada com dados primários da produção agrícola, esse potencial pode praticamente dobrar, ampliando de forma significativa a geração de receita.

Algumas usinas já estruturaram seus processos de rastreabilidade e vêm captando esse ganho adicional na geração de CBios. Outras, no entanto, ainda operam sem esse nível de controle da cadeia produtiva e acabam perdendo competitividade em um mercado cada vez mais orientado por critérios ambientais e econômicos.

Os números mostram que o Renovabio deixou de ser apenas uma política ambiental.

Em 2025, 40,06 milhões de CBios foram aposentados, segundo a ANP, e a estimativa do Itaú BBA aponta para 44,7 milhões de novos créditos em 2026. Nesse cenário, a rastreabilidade da soja se consolida como uma das principais ferramentas para que as usinas de biodiesel ampliem sua eficiência e capturem mais valor nesse mercado.

Guilherme Dominici é sócio da MerX e tem formação em engenharia pela Poli/USP
 

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